
Entrevista - Shadowside

Consolidada já há algum tempo como uma das principais bandas do cenário nacional, a Shadowside mostra mais uma vez seu poder de fogo e lança o aclamado “Inner Monster Out”, álbum esse, que já sucesso de critica no Brasil e no exterior.
Aproveitamos a oportunidade e conversamos com a belíssima Dani Nolden, que nos falou mais sobre o álbum, além de nos conceder alguns depoimentos interessantíssimos, sobre a banda, projetos e principalmente sobre o Metal Open Air.
Jean Paiva: Olá Dani, como vai? Primeiramente gostaria de dizer que é uma honra para nós da DIE FIGHT lhe entrevistarmos. Para começar, gostaria de saber um pouco mais sobre o novo álbum “Inner Monster Out”. A repercussão em território nacional está sendo excelente, e o álbum vem recebendo inúmeras criticas positivas. Está tudo correndo como vocês esperavam?
Dani Nolden: Olá, é um prazer conversar com vocês, obrigada pelo espaço! Tudo está correndo de forma muito melhor que nós esperávamos, nem no momento mais otimista qualquer um de nós poderia ter descrito o momento que estamos vivendo agora. Todos os nossos álbuns sempre foram bem recebidos, mas raramente um trabalho é uma unanimidade. Porém, parece existir um consenso geral entre os críticos musicais e os fãs, todos parecem gostar tanto desse álbum quanto nós gostamos e isso é maravilhoso, nos mostra que estamos na direção certa e que apostarmos em fazer música por prazer dá resultados naturalmente. Nosso único objetivo com esse álbum era agradar aos quatro membros da banda. Não pensamos em aceitação, vendas, resenhas, pensamos apenas em fazer o melhor álbum das nossas carreiras, buscar o som que sempre quisemos fazer e ainda não havíamos encontrado o caminho. Unimos as personalidades e influências completamente diferentes de todos na banda e criamos algo nosso, único, que gostamos de tocar e ouvir. Acredito que isso "contagia" as pessoas. Ao menos para mim, é evidente ao ouvir o disco que Shadowside hoje é uma banda completamente feliz com a música que está fazendo e acredito que todos estão percebendo isso.
Jean Paiva: Conte-nos um pouco sobre o processo de gravação do álbum. Vocês contaram com algumas participações importantes nele, como Björn "Speed" Strid (Soilwork), Mikael Stanne (Dark Tranquillity) e Niklas Isfeldt (Dream Evil). Como surgiram as idéias para os convites dessas participações?
Dani Nolden: A idéia foi pela letra da música, que é algo meio Nietzsche, meio Hannibal Lecter, sobre como você se transforma no monstro quando passa a combatê-lo. E a história tem personagens, ainda que não muito definidos, não é algo como uma opera, mas eles estão lá. Em alguns momentos, é um investigador, em outros a voz na cabeça dele e em outros um assassino cruel, que o investigador precisa compreender para encontrá-lo. Então, desde o início ficou claro que mudaríamos a história, ou ao menos a forma de contá-la, ou precisaríamos de convidados, porque seria idiota eu cantar todos os personagens diferentes sozinha (risos). Então pensamos em quem poderia ser interessante, tanto pelas melodias escritas quanto pelo desafio. Não queríamos alguém que não surpreenderia. Não faria sentido algum pra nós musicalmente colocar alguém que não tivesse algo a oferecer que nós não pudéssemos fazer sozinhos... Pensamos inicialmente no Björn, do Soilwork, e o Niklas, do Dream Evil, porque são vozes bem diferentes da minha, em bandas bem diferentes do Shadowside. Pensamos que seria interessante para eles, pois estariam saindo das suas zonas de conforto, e sem dúvida seria interessante para nós, pois sabíamos que eles acrescentariam algo a nossa música. Foi interessante vê-los dar um toque pessoal no que fizeram sem que a essência do Shadowside fosse perdida. Mikael foi uma surpresa, pois eu não o conhecia até ir a Suécia. Durante nossa estada no país, ficamos amigos do Anders, baterista do Dark Tranquillity, e ele levou Mikael ao estúdio para nos conhecer e escutar o que estávamos fazendo. O Björn estava gravando e o Mikael acabou se empolgando e quis gravar também, o que eu achei excelente, pois adoro a voz dele. Se eu soubesse que isso aconteceria, teria dado mais partes para ele cantar.
Jean Paiva: Vocês gravaram o álbum na Suécia com o produtor Fredrik Nordström. Porque vocês optaram em ir para Suécia, ao invés de gravar o álbum por aqui?
Dani Nolden: Porque aqui, surpreendentemente, sairia muito mais caro para nós, se quiséssemos gravar com Fredrik. Teríamos que trazê-lo para cá, colocá-lo em um hotel legal, pagar comida, porém o pior de tudo seria o aluguel do estúdio, sem qualquer possibilidade de fazer o que fizemos na Suécia: ter o estúdio disponível 24 horas por dia, 7 dias por semana, só para nós. Fredrik tem seu estúdio lá, com todas as instalações de uma casa. Nós moramos no estúdio durante quatro semanas e nos era permitido usá-lo a qualquer hora do dia. Então só parávamos de trabalhar para almoçar, jantar e ir ao supermercado, pois estava frio demais, estávamos longe do centro da cidade, em um local bem afastado. Nós não precisávamos trabalhar 24 horas por dia, mas foi um alívio saber que podíamos. Não ter pressão de gravar em 7, 8 horas que o estúdio disponibilizou para nós foi excelente. Se alguém tinha uma ideia às 4h da manhã, nada nos impedia de ir lá experimentar. Tudo isso tornou o trabalho leve e divertido. Ninguém estava preocupado com o tempo, nem com voltar pra casa depois de um dia longo de gravação.
Jean Paiva: O primeiro single do “Inner Monster Out” é a fantástica “Angel With Horns”, musica que possui um videoclipe no qual podemos ver uma pequena atuação sua como atriz! Como foi essa experiência? E a gravação do clipe? Foi penosa?
Dani Nolden: Foi! Eu odeio ser atriz (risos). Odeio de verdade. Acho divertido em alguns momentos e mais ainda quando está pronto, mas acho um trabalho cansativo e imagino como deve ser duro gravar um filme. Além de tudo, eu sou tímida e estar na frente de uma câmera para algo além de cantar, me deixa apavorada. Mas decidi fazer já que a letra fala sobre uma história real, exagerada no videoclipe, porém a essência dela aconteceu. Meus amigos me chamavam de "angel with horns" exatamente porque viam os dois lados da minha personalidade quase simultaneamente... diziam que sou doce como um anjo e cruel como um demônio, quando necessário. E eles brincavam com isso e com a ideia de largar toda a vida deles e iniciar um relacionamento comigo. Eles sabiam que eu nunca aceitaria e também sabiam que eles nunca fariam isso, pois eram apaixonados pelas esposas, mas estavam entediados com as próprias vidas... Então é um pouco de escapismo, com uma demonstração da natureza das pessoas, e tentamos passar um pouco disso no video. É para ser engraçado e te fazer pensar ao mesmo tempo. Passamos um dia inteiro gravando em Campinas, começamos às 7h da manhã e terminamos por volta de 1h ou 2h do dia seguinte. Durante a gravação da banda, tivemos que ficar em cima de guindastes, maquinários pesados, na mesma posição durante várias horas, o que causou algumas quase quedas e várias dores musculares no dia seguinte (risos). Mas foi muito legal, foi uma experiência interessante.
Jean Paiva: Como você avalia a Shadowside do “Inner Monster Out” comparada a Shadowside do debut “Theatre of Shadows”?
Dani Nolden: A Shadowside, no Theatre of Shadows, queria ser seus ídolos... Queria seguir o som das bandas que admirávamos. A Shadowside agora, do Inner Monster Out, é uma banda madura, confiante, com personalidade e sem medo de arriscar, de experimentar, de fazer algo diferente apenas porque não está na moda, porque ninguém fez antes ou porque é diferente do que nós mesmos já fizemos. Hoje nós deixamos a música fluir e não ficamos mais podando nossa própria criatividade.

Jean Paiva: Recentemente o novo álbum foi lançado no mercado norte-americano, europeu e asiático. Como está sendo a repercussão nesses lugares? Vocês já planejam uma tour por esses continentes?
Dani Nolden: Está sendo excelente! O álbum foi muito bem recebido no Japão, especialmente pela conceituadíssima revista Burrn!. E agora estamos recebendo os reviews da Europa e Estados Unidos, que vieram falando extremamente bem do Inner Monster Out. Estamos muito contentes com a repercussão internacional, os comentários estrangeiros estão acompanhando o que os brasileiros já disseram, o que nos mostra que o álbum realmente agrada e os reviews positivos aqui no Brasil não foram por nacionalismo. Já temos planos para algumas turnês internacionais, sim. Ainda não sei os territórios, não tenho ideia se já seria possível incluir a Ásia, mas é bem provável que façamos alguma coisa na Europa e Estados Unidos.
Jean Paiva: Dani, essa todos querem saber: O que de fato aconteceu entre a Shadowside e a organização do Metal Open Air? Fale-nos um pouco sobre isso, e sobre o suposto descaso com as bandas Brasileiras que iriam participar do festival.
Dani Nolden: Descaso é pouco. Nós ficamos quietos sobre os detalhes "adicionais" da situação das bandas brasileiras, porque acreditávamos sinceramente que os problemas seriam resolvidos na semana que antecedia o Metal Open Air. O que aconteceu foi de um amadorismo e falta de honestidade tão grande que eu nunca imaginei que poderia acontecer. Nossa situação era, acima de tudo, falta de informação e de um contrato. Desde o dia do convite oficial da organização do Metal Open Air para o Shadowside participar do festival, estivemos pedindo um contrato. Isso é o básico, o mínimo, independente se você vai receber cachê e despesas, um contrato com as condições precisa ser assinado. Isso é uma segurança para os dois lados, uma garantia de que você vai cumprir o que está prometendo. E esse contrato nunca veio para nós. Sempre cobrávamos e eles diziam "semana que vem sem falta", "amanhã sem falta". Então nosso cachê e despesas, naquele momento, estavam apenas apalavrados, porém não foi isso que nos forçou a cancelar e sim a questão da logística. Soubemos o dia que tocaríamos da mesma forma que os fãs souberam: pelo press release do Metal Open Air. Eles não nos comunicaram antes de anunciar isso. Não nos perguntaram se dia 21 funcionaria para nós e acredito que não perguntaram para ninguém, mas posso afirmar apenas sobre a Shadowside. Felizmente, ainda não estávamos com a agenda fechada para essas datas, nem como banda, nem com nossos trabalhos individuais, então não foi um problema. Porém, desde esse dia, pressionamos para saber em que horário tocaríamos e essa informação também não chegava. Inicialmente, nos foi passado que tocaríamos por volta das 15h, que seriam apenas dois palcos. Depois apareceu um terceiro palco, que parte da produção dizia que não existiria, e nosso horário às 11h. Perguntamos diversas vezes se aquele horário era o final e em todas às vezes, eles diziam que confirmariam logo ou que esses horários seriam modificados. Tudo isso, sem o contrato assinado. Estávamos sem qualquer garantia e tínhamos que continuar nossas vidas, nós dependemos de música para viver e não poderíamos simplesmente esperar uma posição do festival para continuar nossos trabalhos. Então, fomos obrigados a marcar compromissos para os dias 20 e 22, com base nas informações de que tocaríamos no dia 21, possivelmente às 15h. Avisamos a produção do festival durante mais de um mês que não estaríamos disponíveis durante o final de semana inteiro, que precisávamos de uma confirmação deles para que pudéssemos nos programar, porém essa confirmação veio apenas a menos de duas semanas do festival, quando já não tínhamos como mudar qualquer coisa. Poderíamos viajar no dia 21, porém o vôo mais cedo chegando em São Luís aquele dia seria ao 12h38. Não poderíamos simplesmente cancelar nossos outros compromissos, especialmente pela falta de contrato. Não tínhamos qualquer garantia de que sequer tocaríamos. Então quando ficou claro que teríamos que cancelar, a Negri Concerts nos pediu que não comentássemos na nota para a imprensa qual era a situação completa. Pediram para que não falássemos que estávamos sem contrato, sem passagens, nem cachê, porque isso poderia prejudicar o festival. Nós concordamos para não prejudicá-los, porque tínhamos plena certeza de que os problemas seriam resolvidos. A Lamparina estava responsável pelas bandas nacionais e pensei que eles estavam apenas atrasados. Eu estava apoiando o festival e incentivando as pessoas a irem, mesmo sem o Shadowside no line-up, até ver que não era apenas a Shadowside nessa situação, e que com bandas como Stress, Hangar, Headhunter DC, entre outras, estavam cancelando na mesma situação que nós, e bandas como Saxon cancelando por falta de pagamento, eles estavam soltando um comunicado que nenhuma banda estava cancelada, que eram apenas rumores. Nós fomos a primeira banda a prever o caos, fomos criticados por "abandonar" o que seria maior festival de heavy metal do país, mas agora todas as pessoas devem estar com remorso de ter queimado a língua.
Jean Paiva: De um modo geral, como você avalia o cenário do metal brasileiro?
Dani Nolden: Eu acho que é um cenário rico, tem tudo para crescer. Temos muitas bandas excelentes, se profissionalizando cada vez mais, levando a própria música a sério. Bandas como Kamala, Trayce, Pleiades, Command6, entre várias outras, tem tudo para ir longe. Temos apenas que limpar o país de pseudo-promotores de eventos, trabalhar apenas com gente que esteja interessada em dar condições tanto para as bandas apresentarem seus trabalhos, quanto para o público curtir o show de verdade.
Jean Paiva: Conte-nos um pouco sobre você. Quais são suas influencias? Como você decidiu se tornar uma cantora – e das boas - de Heavy Metal?
Dani Nolden: Bem, das boas, eu não sabia se seria (risos). Eu sempre gostei de cantar, mais do que de tocar qualquer instrumento. Meus pais tentaram me empurrar para o piano quando eu era criança, mas eu nunca tive disciplina para realmente estudar um instrumento. Cantar sempre foi algo mais natural pra mim, eu não achava chato praticar canto. Mas não comecei a levar isso à sério até ficar sem tempo para me dedicar a música. Eu estava no caminho para ser uma atleta, jogava futebol nas categorias de base do Santos FC e tinha cada vez menos tempo livre pra minha bandinha de garagem (risos). Percebi que sentia muita falta daquilo e que meu caminho era na música e não no esporte. Minhas influências são cantores como Freddy Mercury, Steven Tyler, Sebastian Bach, Paul Stanley... Sempre foram homens. Eu não conhecia Metal com vozes femininas. Só fui conhecer quando começaram a me comparar com algumas cantoras.
Jean Paiva: Dani, todos sabem que o Metal é quase que todo dominado pelos homens, mas que ao longo dos anos a história vem mudando e as mulheres estão ocupando cada vez mais espaço no gênero. Mas o espaço ainda é pequeno e salvo algumas exceções, geralmente é uma única mulher no meio de uma banda e uma equipe só de homens.
É difícil para você conviver em um “mundo de homens”, e principalmente com os comentários machistas que quase sempre rolam entre uma conversa e outra? Como funciona isso na Shadowside?
Dani Nolden: Eu não acho difícil, porque eu não sou feminista. Não tento mudar os homens e não me incomodo com comentários machistas, porque é como eles são entre eles. Seria imaturo da minha parte tentar fazer com que eles fossem verdadeiros cavalheiros na minha frente, especialmente em uma turnê. Turnês são cansativas, quase não temos tempo para dormir, se os caras não puderem ser eles mesmos dentro da "casa" deles, eles vão pirar. Isso não me impede de ser eu mesma também e perturbá-los com coisas de mulheres também (risos). Eu acho que esse mundo do Metal é dominado pelos homens apenas porque menos mulheres se interessam por ele, não porque o espaço não existe. Eu não passei qualquer dificuldade relacionada ao fato de ser mulher. Nunca duvidaram da minha capacidade. O máximo que algumas pessoas falam é que não costumam gostar de vocais femininos como do Nightwish, mas eu acho que isso é uma questão de gosto, não de machismo. Se mais mulheres começaram a ocupar lugares em bandas, é porque mais meninas estão ficando com vontade de ter bandas. Mas nunca ouvi "não quero você na minha banda porque você é mulher", nem "não vou assinar com a sua banda porque você é mulher". Como nós falamos dentro da banda, os rapazes são mulheres para mim e eu sou homem para eles. Nos tratamos de forma igual. Uma mulher que entra em uma banda esperando que alguém sempre carregue as malas dela ou que todos sejam sempre sensíveis e respeitosos vai acabar quebrando a cara. Em uma turnê de dois, três meses, ninguém aguenta ser diferente do que é em casa. Os membros da banda acabam se tratando como irmãos, do contrário não dá certo. Menina em banda não pode ser mimada (risos).
Jean Paiva: E para o futuro? Quais os seus planos, e os planos da Shadowside?
Dani Nolden: Queremos estar no palco por muito tempo antes de pensar em um novo álbum, eu pessoalmente gostaria muito de rodar o Brasil com essa turnê. Já temos alguns shows quase confirmados, depois iremos para o exterior. Meus planos pessoais agora são apenas meus estudos de técnica vocal, pois meu foco está praticamente todo na Shadowside. Não vamos descansar tão cedo!
Jean Paiva: Dani, muito obrigado por nos conceder alguns minutos do seu tempo. O espaço é seu. Mande um recado aos fãs da Shadowside.
Dani Nolden: Muito obrigada pelo apoio, estou muito feliz com o carinho que todos vocês tem nos dado, espero vê-los em algum show em breve. Um abraço!
Contatos:
www.shadowside.ws
http://www.myspace.com/shadowsideband
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