
Entrevista - Cangaço

Por João Messias THE ROCKER
Além de ter sido um dos movimentos mais importantes na Cultura Nordestina nos séculos XIX e XX, que teve como seus ícones Lampião e Maria Bonita, Cangaço também é o nome de uma das mais promissoras bandas nacionais da cena Nordestina.
Natural do Recife, a banda que lançou recentemente seu novo EP, chamado Positivo já tem em seu curriculum uma mini tour por São Paulo e uma apresentação no badalado festival alemão Wacken Open Air e todos estes fatores nos indicam um belo futuro pela frente.
Nesta entrevista para a Die Fight, a banda nos conta destas experiências, a mistura de estilos regionais com o Rock e muito mais:
The Rocker: Não tem como começar de outra forma, vou iniciar a matéria perguntando o que mudou em termos de reconhecimento e divulgação ter vencido a seletiva nacional para o Wacken e ter participado do maior festival de metal do planeta?
Cangaço: Acreditamos que a maior mudança aconteceu conosco, em termos de confiança em nosso próprio trabalho e caminho que escolhemos seguir. Evidente que a divulgação aumentou até mesmo porque fomos representar o país, e essa foi a maior honra de nossas vidas. Entretanto, não acreditamos que fomos “melhores” que outras bandas, até porque esse conceito não existe na arte. Procuramos nos manter realistas que ainda temos muito que melhorar e criar, representando cada vez mais nosso povo e de onde viemos.
The Rocker: O que vocês acharam da apresentação que fizeram no festival e o que vocês acharam do Wacken em relação a organização, estrutura, qualidade das bandas, etc.
Cangaço: A participação no festival nos serviu como um supletivo. De como é possível uma organização gigante em prol do Heavy Metal, com todas as tribos representadas nos palcos e respeitadas entre o público de forma humana e pacífica, além da certeza de que o Metal ainda tem muito o que desenvolver pelo Brasil, de forma autêntica e de qualidade.
The Rocker: Como foram os reviews gringos referentes a apresentação de vocês na Alemanha?
Cangaço: Nada de mais, reconheceram a qualidade técnica de nossa apresentação, entretanto a proposta da banda ficou um pouco nublada. A temática é muito nova e pouco explorada no mercado internacional do Metal. Mais um motivo para nos engajarmos e aprofundarmos as características regionais harmônicas e líricas no trabalho da banda de forma que seja entendido por qualquer ouvinte do mundo.
The Rocker: O assunto até deixou de ser comentado, mas muito se falou em uma edição nacional do Wacken aqui no Brasil, vocês acham que temos condições de proporcionar um festival parecido com o da Alemanha na parte de Organização, Estrutura e Segurança?
Cangaço: Tomara que sim! Torcemos muito para que isso aconteça de fato. O Brasil tem totais condições de sediar uma edição do Wacken. Público não falta e apoio às bandas nacionais também não. Iria ser histórico e um grande passo para o Metal nacional. Se rola uma Copa ou Olimpíada, por que não um showzinho de Metal?
The Rocker: Toda vez que eu entrevisto uma banda do Nordeste, eu sempre faço essa pergunta: Como você vê o Rock/Metal na sua região, visto que hoje temos dois festivais (Abril Pro Rock e ForCaos), além de estarem recebendo muitos shows de bandas internacionais. Na opinião de vocês, podemos dizer que hoje a região Nordeste também está na rota dos grandes shows?
Cangaço: Os dois festivais que citou são bons exemplos de e apoio à cena Metal no Nordeste, podemos citar outros de grande importância como o Blizzard, Carmetal, Rock Meeting, Sun Rock e Visions of Rock. A vinda dos grandes nomes internacionais é apenas reflexo do desenvolvimento do estilo na região. Que ainda tem muito a crescer.
The Rocker: Mudando de assunto, vamos falar um pouco do seu novo EP, chamado Positivo. Apesar do pouco tempo que foi lançado, como está a sua repercussão?
Cangaço: Positiva. A inserção das letras em português no projeto foi uma necessidade que nos levou à experiência de algo pouco explorado atualmente, o uso das técnicas guturais com o idioma vigente no Brasil foi e ainda é um desafio, porém, recompensador pela amplitude comunicativa que nos propiciou. Apesar do resultado diferente, a receptividade do público foi bem melhor do que nossa expectativa. O público que curte Metal no Brasil merece composições em sua própria língua.
The Rocker: E para divulgar este trabalho, vocês fizeram alguns shows em São Paulo, junto com o pessoal do Necromesis. Como surgiu a idéia de fazer este giro no Sudeste e qual o saldo desta mini turnê?
Cangaço: A iniciativa partiu de Gilmar, baterista, que através de um e-mail nos convidou para alguns shows pelo estado de São Paulo. Topamos na hora e agradecemos de todo coração ao pessoal que nos acolheu tão bem e possibilitou a divulgação de nosso trabalho por essas terras. Conhecemos toda a cena do ABC e de diversas cidades do interior, além da experiência do que é uma turnê. O saldo sem dúvida foi válido, mas, o melhor de tudo foi o vínculo entre todas as bandas que dividiram o palco conosco e o intercâmbio social com pessoas como os caras do Necromesis. Um abraço para Victor, Daniel e Gilmar.
The Rocker: Positivo continua com a mesma proposta do primeiro trabalho, Parabelo, mas desta vez as passagens que tem elementos regionais estão mais discretas, o que tornaram o material mais homogeneo e direto. Essa transição entre os trabalhos foi algo pensado ou surgiu naturalmente?
Cangaço: Toda transição tem que vir naturalmente de uma necessidade. O Positivo foi primeiramente um teste de uma nova sonoridade que tentamos criar, fugindo um pouco dos padrões que tanto nos influenciavam. A música regional foi encaixada em arranjos de Metal, não em partes heterogêneas como se vê comumente nas bandas de folk.
The Rocker: Como citamos a mistura de Rock com ritmos regionais e percussão, citarei algumas bandas que fizeram esta mistura e queria sua opinião a elas: Sepultura, Overdose, Mundo Livre SA e Chico Science e Nação Zumbi:
Cangaço:
• Sepultura
R. Primeira banda de Metal da cena brasileira a estourar de fato no mercado internacional Incorporam influências rítmicas muito bem às afinações baixas do industrial atual. A fase posterior ao Chaos A.D é de fato uma boa escola às bandas que buscam uma boa mistura de percussão brasileira e guitarras distorcidas.
• Overdose
R. Apesar de curtir a banda, não conheço trabalhos deles que explorassem tal mistura. (N. do R. : As fusões percussivas se iniciaram a partir do álbum Progress Of Decadence).
• Mundo Livre SA
R. Nossos conterrâneos pernambucanos sempre tiveram seu público fiel e apesar de serem mais agressivos no início da carreira, sempre foram bem considerados e respeitados na cena mangue beat e no Brasil todo. Fazem um som bem groovado e com letras cativantes, além de muita influência psicodélica. O público do Metal deveria conhecer um pouco mais a história da banda.
• Chico Science e Nação Zumbi
R. Esses aí dispensam comentários, souberam como mestres da arte, unir as mais diferentes tribos da cidade do Recife. Hip hop, Funk, Metal, Rock’n Roll, Maracatu aliados a uma lírica moderna e de forte impacto social criaram um dos maiores e mais pedagógicos estilos da história da música brasileira. Clássico da globalização e belo acervo de metáforas sociais.
The Rocker: Muito obrigado pela entrevista! Deixem uma mensagem aos leitores desta publicação!
Agradecemos de todo coração àqueles que buscam pensar, refletir, evoluir e ensinar ao semelhante através da arte. Obrigado pelo espaço e tempo cedidos.
Contatos:
www.myspace.com/cangacometal
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