

Entrevista - Steel Warrior

Hoje batemos um papo com os catarinenses do Steel Warrior , banda de referência quando se fala em Power metal no Brasil, conhecida Mundialmente após uma tour na Europa, tendo em seu currículo 4 trabalhos gravados em mais de 15 anos de muito Metal, e quem nos conta mais detalhes sobre a trajetória desses guerreiros é o baterista Culver Yu.
1.Primeiramente é um prazer entrevistar o steel Warrior.Apresente a banda a nossos leitores e como está sendo a repercussão do novo trabalho intitulado legends?
O grande prazer é meu Marcio, obrigado pela oportunidade! A repercussão do Legends está sendo acompanhada pelos que já acompanham a banda há tempos, dada a realidade de hoje de mercado, acredito que está muito bem, praticamente com divulgação zero na mídia – mesmo especializada – e distribuição somente em alguns locais além da banda, está repercutindo muito bem, com vendas inclusive bastante expressivas no Japão e na Europa, sem contar os EUA. Temos recebido somente comentários positivos, felizmente! E seguimos adiante!
2.A Banda gravou sua primeira demo em outubro de 96 "Steel Warrior",como foi sua repercussão na época?
Sem dúvida, era bem maior, pois naquele tempo, o próprio cenário ajudava muito, público era infinitamente maior para bandas underground do que é hoje em dia. Existe um paradoxo nisso tudo, quando começamos tudo era mais difícil, a internet estava só engatinhando, recurso era menor tecnologicamente, porém o alcance era maior. Atualmente existe uma “saturação” de mercado em que tudo ficou mais fácil (gravar, produzir, divulgar, etc) porém, o alcance se tornou menor, porque não existe mais “filtro” e a mídia simplesmente não dá conta de dar espaço a todos, nem mesmo lançando um trabalho oficial você consegue mais entrevistas! E por isso damos importância a este “ressurgimento” de publicações “mais underground” que se dedica ao cenário nacional pois os maiores do país simplesmente fecharam suas portas às bandas brasileiras. Mas estamos aí, sempre por amor à música e tocamos metal porque o estilo é o nosso sangue.
3.A banda realizou um show em Sorocaba nessa época, o qual tive a honra de assistir, e garanto foi inspirador, o que você´s podem contar sobre esse show?
Foi um período mágico, quando recebemos o convite do Eliton (antigo editor da Valhalla e Rock Hard) para tocar em Sorocaba foi quase um sonho, pois até então nunca tínhamos saído do nosso estado para tocar, e o mais engraçado de tudo é que sendo praticamente o primeiro show fora de SC, fomos separados em dias diferentes! Pois como banda nova querendo mostrar trabalho, não era prática a produção pagar toda a despesa de viagem e estávamos contando com a venda das demos em K7 (!) e camisetas só com o logotipo para voltar para casa! E foi incrível que vendemos tudo que levamos e ainda pudemos comer na volta! Foi incrível ver tanta gente agitando num show de uma banda que estava pela primeira vez ali, eu particularmente até então era o maior público que tive a honra de ver. O público dessa região sempre e continua apoiando a banda e com certeza queremos voltar muito em breve! Devemos muito ao povo do interior de SP, especialmente a região de Sorocaba, isso ainda inclui Itu, Salto e Piedade.
4.Em maio de 99, a banda lança seu primeiro cd intitulado "Visions from the Mistland" de forma independente, esse com tiragem esgotada, porém logo em seguida assinam com a Hellion, como isso aconteceu? E quais frutos foram colhidos com o selo?
É, fizemos este primeiro trabalho na base de muitos sacrifícios e agradeço imensamente até hoje que foi este trabalho que nos projetou, mesmo com a capa “tosca” e produção mediana era tudo que podíamos fazer na época, praticamente “torramos” todos os nossos bens de adolescente, sem apoio financeiro nenhum, num trabalho de quase 2 anos entre viagens de ônibus, hotel tosco, comida barata, só faltou vender a mãe para gravar e prensar o CD (risos), mas mesmo assim o “sucesso” foi estrondoso, vendemos tudo em apenas 3 meses então despertou o interesse da Hellion em contratar a banda e sugeriu a mudança da capa e uma remasterização para ficar com mais “cara” de mercado, produto de gravadora, então começou a render muitos contatos no meio, ficamos mais conhecidos e tudo mais, nisso também surgiu oportunidade de tocar com bons nomes internacionais como o Symphony X e com certeza, teve também uma boa expressividade de vendas que nos elevou nacionalmente e fora do Brasil.
5.No Brasil a todo tempo surgem bandas similares e com os mesmos sonhos que o steel warrior,qual o conselho que você´s podem passar a esses novos batalhadores?
Nesses 15 anos na mesma banda, posso afirmar que a receita é muito simples, seja honesto e acredite no que faz e diz, pois um bom músico não é mostrar quantas notas você consegue fazer por bpm e sim a mensagem que você consegue transmitir com sua música e vá a luta!
6.Em maio de 2001 o Steel Warrior realiza um sonho que poucas bandas conseguem e tudo isso em pouco tempo, nos conte como foi a Tour na Europa? E Como foi a recepção dos fãs gringos?
Sim, fizemos essa loucura em 2001! Largamos tudo mesmo e nos mandamos para Europa, com apenas alguns shows marcados, onde ficamos por 3 meses, voltando ao Brasil para recomeçar tudo, porém, toda a experiência de vida adquirida por lá nos trouxe um amadurecimento tremendo como pessoas, não pensem que estivemos como “reis” por lá, passamos muitas dificuldades chegando a comer apenas uma vez por dia com arroz branco ou macarrão sem molho, então tudo isso serviu de aprendizado, só quem viveu isso saberia descrever como foi, pois cada um nós, acreditem ou não, viajou com não mais que 250 dólares e sobrevivemos 3 meses! Claro que os shows eram remunerados porém tínhamos que contar os centavos para poder viajar até a cidade ou país seguinte e nos alimentar. O público europeu não é muito diferente em termos de atitude, o que nos difere deles é que eles têm um poder aquisitivo bem maior, e se gostaram de sua banda, vão comprar tudo que tiver, era muito engraçado ver alguém do público (tocávamos em casas pequenas e podia ver bem o público) sumir do nada no meio do show, nós achando que o cara não gostou do show e foi embora, e de repente, o sujeito reaparece vestido com a camiseta da banda e na mão todos os outros merchandisings e agitando igual a um epiléptico! A outra diferença é que eles apóiam mais o underground, diferentemente da enxurrada de bandas estrangeiras que aportam no Brasil cobrando ingressos de shows 20, 30 até 50 vezes maior que um show de banda nacional e o público daqui guarda dinheiro e vai, sendo que muitas vezes estas bandas “consagradas” mal tocam para 100 pessoas em seus países de origem e aqui tocam para milhares, só que infelizmente, está cada mais difícil o público daqui valorizar o cenário nacional pois as bandas gringas tem mais “valor”, esquecendo que o Brasil é o maior potencial metálico do planeta e o público europeu APÓIA incondicionalmente as bandas locais, e apóia da mesma forma as estrangeiras então é isso que podemos aprender com deles.
Em todos os países que passamos, fomos encarar a realidade nua e crua, batalhando literalmente na estrada e a experiência nos serviu para ser como somos atualmente.
7.Em 2002 vc´s entram em estúdio para lançar ainda pelo selo Hellion o novo álbum "Army of the Time" agradando ainda mais o público Brasileiro e Mundial inclusive ficando entre os 15 álbuns mais cotados da maior revista japonesa “Burn”. Como foi isso?
Retornamos da Europa e fomos direto para o estúdio para gravar o Army... ainda “quente” da maratona, aproveitando o clima, as idéias frescas e transmitir todo o sentimento que ali estavam e gravamos ele, o que resultou num som mais agressivo que o trabalho de estreia. Não há descrição para dizer tudo que aconteceu com este álbum, sendo elogiado em todos os cantos, a Hellion enviou algumas cópias para o Japão e acabamos no top chart 50 de Cd´s importados na Burnn!! durante 6 meses, já entrando na 31ª posição chegando a 15ª no terceiro mês, realmente foi uma surpresa muito grande e nós nem sabíamos até que nos enviaram um scan da página onde figurava isso. O álbum repercutiu muito bem também na Europa e nos EUA, foi o que permitiu também a banda participar da melhor edição do Brasil Metal Union (está realmente fazendo falta!) o qual foi um show inesquecível!

8.No primeiro álbum encontramos faixas e seguimentos da primeira demo,com riffs e vocais melódicos,porém em Army of the Time segundo trabalho da banda,André Fabian muda completamente os vocais, os quais ficam mais agressivos e com a marca que até hoje é levada adiante pelo Steel Warrior,com um poderoso Power Metal, como foi essa mudança?
Foi algo muito natural, na verdade, quem viu um show da banda antes do Army..., isso inclui você (rs), sabe que a banda soou sempre assim, o que aconteceu com a demo e o Visions... foi o resultado de produções feitas com poucos recursos aliada a pouca experiência até então, acabou soando mais “melódico” e “tradicional” e no Army... tivemos mais tempo e recursos que permitiu que a produção saísse como a banda deveria e partir de então, fomos aprendendo pouco a pouco sobre a nossa própria essência como banda e a sólida formação fixa que temos há quase 12 anos com certeza também ajudou neste processo.
9.As faixas rasalom e Revenge pra mim são as melhores do primeiro disco, quais faixas dos 3 trabalhos o Steel Warrior vem apresentando em seus shows, quais são as mais clássicas para a banda?
Estas duas nunca pode faltar né (rs), não diríamos que são “clássicas” porém é o que o público sempre pede, se o tempo permitisse tocaríamos os 3 álbuns inteiros! Procuramos sempre variar set lists entre os shows e isso tem funcionado muito bem, pois uma que deixamos de tocar no ano passado tocamos neste ano então quem vai aos nossos shows sempre terá algo “diferente”, inclusive covers com a nossa “roupagem”, mas claro que algumas nunca podem faltar, e logicamente, agora com o Legends temos que concentrar mais em cima dele sem esquecer o que há de bom nos outros dois.
10.Em 2008 é lançado "Legends" com uma sonoridade e identidade que já é a marca do Steel Warrior, você´s acham que a amadurecimento musicalmente da banda está registrado nesse álbum?
Ainda temos muito o que aprender e amadurecer como banda, fico realmente feliz e grato em saber de você que já conseguimos atingir uma identidade sonora, então o que devemos fazer é continuar adiante sem deixar a nossa raiz, inovando no bom sentido aproveitando o que há de melhor no que já fizemos, sempre evoluindo. Legends é sem dúvida o “melhor” trabalho que conseguimos realizar, ao mesmo tempo em que fizemos a música mais rápida de toda carreira também foi possível compor e explorar caminhos diferentes nunca feito antes.
11.No Brasil os shows de Metal estão cada vez mais difíceis em termos de bandas nacionais, o que você´s acham dessa dificuldade que uma banda vem tendo mesmo como uma trajetória grande como a de você´s, qual o sentimento da banda em relação a esse fato?
O mercado sempre foi instável, isso todos nós sabemos, o problema é que no Brasil, conforme já foi citado numa pergunta anterior sobre a nossa batalha na Europa, aqui sempre existiu a cultura do “o que vem de fora é melhor” e infelizmente piorou nos últimos anos, são artistas demais aportando no país, este ano mesmo é uma loucura total, Ozzy Osbourne e Iron Maiden num intervalo de 20 dias, se por um lado é bom termos oportunidade de ver megabandas que fizeram história do próprio estilo por outro lado desestimula produtores sem o mesmo porte a realizar shows com bandas nacionais pois o público valorizará mais o que vem de fora. Nos anos 90 e no início do ano 2000 tinham menos opções de shows internacionais e também não tinha a saturação das redes sociais na internet, era mais fácil “escolher” qual show ir, e com o tempo, a queda de venda de CD´s, a mídia fechando suas portas, monopólio de alguns outros veículos especializados e “apadrinhamento” através de jabá, literalmente, perdoe-me o uso dessa palavra, fudeu a nossa cena por completo, inclusive muitos selos quebraram ou pararam de contratar bandas brasileiras, por puro desestímulo. É a realidade do mercado, mas somos apenas um grão de areia na praia, simplesmente fazemos o que sempre fizemos, com honestidade e orgulho do que fazemos, e isso é o suficiente para nos mantermos motivos a continuar, apenas por amor ao metal.
12.O álbum "Legends" foi gravado de maneira independente, nos conte como foi gravar esse álbum. Quanto tempo demorou?
Na prática, a gravação durou um ano, o que realmente atrasou foi que quando entrei em estúdio para gravar a bateria (no RVB Studios, de propriedade do Deny Bonfante, guitarrista do Perpetual Dreams) decidimos que iríamos produzir tudo sozinhos e surgiu a idéia de construir o nosso próprio estúdio e assim o André aproveitou uma parte da casa dele e iniciou a construção e reforma, como basicamente ele financiou tudo sozinho, acabou levando 2 anos para chegar no ponto em que podíamos gravar ali, então foi aproveitado o que gravei no final de 2004 e o restante em 2007 até meados de 2008, e assim, fizemos o Legends, que acabou sendo, pelo menos para nós, a melhor produção que pudemos atingir em todos estes anos.
13.Gravar um Cd independente está cada vez mais viável hoje em dia fato que bandas novas no meio metal como o Hellish War, Dragon Ring, Hazy Hamlet entre outras vem fazendo. Além do surgimento dos pequenos selos de distribuição dando suporte as bandas, sem dizer que grandes gravadoras estão fechando suas portas, qual a visão do steel Warrior em relação a isso? Será que é pelo valor absurdos dos Cd´s ou isso é devido a avalanche de bandas que são lançadas anualmente?
Primeiramente mando um grande abraço a estas bandas citadas, já faz algum tempo que não nos vemos, esperamos nos encontrar novamente em muito breve. A tecnologia atual permite e muito com facilidade a qualquer artista gravar seus trabalhos com boa qualidade em casa, não há dúvidas, mas o principal ainda é o conteúdo, então a boa música sempre terá seu ouvinte. É verdade que há mais lançamentos do que o mercado consegue absorver e o preço dos CD se tornou um “absurdo” porque baixar MP3 é de graça, correto? A opinião acerca disso tudo, vou passar o meu ponto de vista, é que é necessário se adaptar a realidade e usar maneiras criativas de divulgar seu trabalho, talvez interagindo direto com seu público sem o uso do modo tradicional, como podemos ver, muitos selos e gravadoras estão se tornando promotoras de shows para “vender” seus artistas, não me lembro aonde eu li mas ficou gravado “se antes o artista lançava um álbum para promover turnê hoje em dia se faz turnê para promover um álbum” e shows sempre foi a base de sustentação de qualquer músico, não digo financeiramente, mas é o que move, então se muitos já estão se adaptando, por que nós não podemos e encarar numa boa? E o Darwin dizia: A seleção é natural.
14.Como foi tocar lado a lado com o mestre Kai hansen (Gamma Ray) e da banda Grave Digger?
Ter estado com o mestre Kai é uma verdadeira aula de humildade! Nem tínhamos completado um ano de banda e tivemos a oportunidade de estar com o Gamma Ray no mesmo camarim praticamente! Conversamos muito e a banda toda é ultra simpática com todos, não somente conosco, aquilo foi realmente um dos dias mais felizes da minha vida, não sou guitarrista mas o Kai é meu ídolo, acompanho o trabalho dele desde o EP Helloween e ver um cara desses conversando comigo de igual para igual não há nada que pague, aprendemos muito mesmo. Além do Gamma Ray, já tocamos também com o Symphony X em 2000 e o Jason voltou ao Brasil em dezembro daquele ano, ficou em nossa cidade por alguns dias e ganhei umas aulas de graça e o cara elogiou até meus “dotes culinários”, também em New York não sei realmente o que se come. O Grave Digger foi um show legal, mesmo que tenhamos sido “sabotados” porque o público estava agitando muito no nosso show. Apesar de ser muito fã da banda, o estrelismo deles não me agradou nem um pouco, se comparado ao Gamma Ray.
15. A formação da banda está estabilizada há 10 anos e atualmente conta com André Fabian (Vocais e guitarra), Boon Yu (guitarra e Backing vocais), Anderson Gomes Agostinho (Baixo e backing vocais e Culver Yu (bateria e backing vocais), e sabemos que viver de metal no Brasil está cada vez mais difícil, qual a profissão verdadeira dos integrantes?
Estamos chegando a quase 12 anos na mesma formação, o que é quase um milagre! E falando de viver de metal no Brasil, isso nunca aconteceu, e as únicas 4 bandas que viviam do metal acho que nem vivem mais de suas bandas, apesar de viverem de alguma forma com música. Sempre estivemos com o pé no chão, como nunca tivemos nenhum tipo de “paitrocínio” fomos buscando segurança em nossas vidas pessoais, tendo profissões consideradas “normais” para também poder sustentar a banda. Então diria que as nossas profissões, porque músico também é profissão (rs), dão um pouco mais de segurança para podermos seguir em frente com o Steel Warrior. O André é analista de sistemas e tem a própria empresa, o meu irmão é auto-aero-modelista e tem uma loja do ramo, o Anderson é advogado e eu tenho uma empresa que presta serviços de TI.
16.Deixo esse espaço para considerações finais, agenda e notícias futuras. e desde já agradeço a essa grande entrevista e espero ver em breve novamente a banda em palcos Paulistas.
Obrigado Márcio pela oportunidade, longa vida ao Die Fight e ao Dragon Ring (vamos tocar juntos logo certo!) e a todos que nos deu a honra de ler esta entrevista, nos vemos em muito breve! Stay metal!
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