
Entrevista - Oligarquia.

Força Peso e muita garra, assim podem definir a Oligarquia, este grupo que esta há quase vinte anos na estrada e com trabalhos de peso e nome no cenário nacional. Apresentando-nos um Death metal direto certeiro e poderoso. Eu converso agora com o fundador da Oligarquia, Panda Reis.
João Antonio: Conte-nos um pouco da trajetória da Oligarquia.
Panda Reis: Bom... Isso começou no final dos anos 80, começo dos 90 quando eu e um amigo decidimos montar uma banda, depois disso as coisas sempre andaram devagar pra banda, não somos o tipo de banda que as coisas acontecem naturalmente, tivemos que nos focar na idéia, ralar pra caralho pra conseguir grana pra comprar instrumentos, depois tentar aprender os instrumentos na raça, e achar o resto da banda, e as coisas continuaram sendo difíceis no resto da trajetória, correria pra arrumar shows, correria pra conseguir lançar as demos, correria pra conseguir o primeiro contrato pra lançar o debut Nechropolis e de lá até hoje as dificuldades prossegue. Somos uma típica banda do underground mesmo, tudo que fizemos foi na raça, forçando pra acontecer, nada aconteceu naturalmente por aqui, até por que uma banda como a nossa nada pode acontecer naturalmente, pois somos bem diferentes das bandas da nossa época, que queriam reconhecimento e espaço na cena, nos sempre fomos à ovelha negra, sempre cagamos em seguir o que tava dando certo, digo até na maneira de gerencia a carreira da banda, me lembro que com o nosso cd Humanavirus choveram propostas pra shows, e apareceu uma tour na Europa e Japão, os caras animadões pra irem, porra, era começo do 2001, todos queriam ir fazer uma tour assim, eu não. (rs)
João Antonio: Após varias mudanças de formação, a Oligarquia aprendeu muito, hoje vocês consideram essa formação como a melhor do grupo?
Panda Reis: Mudamos desde quando nascemos, formamos a banda eu e o Massa, depois entrou o Lincoln Podre, o Alex Chiovitti, Willian, o Gildão, Wagner, Coiote e por ai vai... E esses ai citados eu estou falando dos cinco primeiros anos, nunca foi fácil ficar em uma banda como a nossa que sempre esteve no lado B do underground, que nunca seguiu as trilhas para se viver da musica ou ter mais destaque, o que pode ter sido um erro, mas era essa a proposta da banda, pois se não for pra ser como queremos ser, se não tivermos a liberdade que queremos, não faria sentido tocar, talvez por isso quase duas décadas de miséria e desgraça pro nosso lado!! Hahahahaha!!! Uns nasceram pra entrarem na história como lendas seminais, influentes do cenário nacional, legendárias, outras nasceram pra serem os Cult, a banda obscura que influenciou a banda mundialmente conhecida !! Alguns músicos querem ir pro outro lado, talvez seja por isso que sempre mudamos tanto de formação. A melhor formação da banda sempre vai ser a que mantém a banda viva e na ativa, passaram muitos amigos pela banda que tenho contato até hoje, mas tem alguns que não me entenderam e me acham um idiota apaixonado pelo anonimato hahahaha!!!
João Antonio: Com quase vinte anos de estrada a Oligarquia viu e ajudou a criar o cenário no Brasil que tem seus altos e baixos. Como vocês viveram todos esses anos no cenário brasileiro o vêem atualmente? Muita coisa mudou?
Panda Reis: Então... Vou tentar ser o mais sintético possível, pois é um assunto extenso, o cenário melhorou por causa da melhora tecnológica, por que a aceitação é a mesma e em algumas cidades é ainda pior, eu diria que não temos uma renovação forte de público, tá tudo fácil, tudo nas mãos, ou melhor, no computador, os shows de bandas menores ou novas, estão cada vez menores , e falo de shows de bandas foda que todos vcs conhecem , é um parto pra conseguir lugar pra fazer shows, claro que para bandas maiores, com carreira internacional as coisas são mais fáceis, mas nem tanto, essa semana gravando o novo cd do meu projeto, falando com meus parceiros do Claustrofobia, estávamos conversando da dificuldade pra se marcar shows, armar turnês remuneradas e muitas às vezes até apenas pelo transporte e rango. Podem me chamar de crítico demais, mas o underground esta mais democrático e finalmente as gravadoras estão mortas isso é fato, mas não vejo nossa cena realmente underground tão forte assim, vá aos shows das bandas que você não conhece e vai perceber o que eu falo, tanto é que tem puto aqui cobrando das bandas mais novas que vendam ingressos para tocarem, foda isso... Não compactuo com isso. Se a cena ta melhor talvez seja para a nova geração que já cresceu Nesse esquema de pagar pra tocar, de ver seus shows vazios e suas paginas bombando, pra mim tá muito parecida com a metade dos anos 90 pra cá, sinto falta dos shows do final dos 80 e a primeira metade dos 90, a gente fazia shows pra quase 500 pessoas, porra ... E nunca fomos nada!! Hahahahaha!!!!
João Antonio: O que vocês consideram hoje o fator mais limitador pra expansão do cenário brasileiro?
Panda Reis: Foda que tem vários fatores, mas para citar apenas um eu diria que é a condição subdesenvolvida do nosso país, pois a indústria da música é uma indústria capitalista que segue essas regras, então é claro que um país com tantos problemas históricos como o nosso tenha uma cena mais fraca e subdesenvolvida, reflexo da nossa situação global há séculos. O problema é mais complexo que o romantismo patético que alguns vomitam por ai, exaltando a cena, glorificando espasmos moribundos de uma cena pequena em um segmento pequeno na musica mundial. Acredito que as bandas bem sucedidas são do primeiro mundo não por que elas são melhores que as daqui, mas por que tem mais dinheiro girando na economia do país natal dessas bandas, e com isso mais poderio financeiro para investir, viajar, e produzir materiais de qualidade, as pouquíssimas bandas nacionais que vivem da sua música diretamente (falo da música que se faz sobreviver dos shows, dos discos e não complementando com aulas, estúdio) nem são de metal. Bandas de metal nessas condições podemos falar de apenas duas, as outras são de playboys que nunca tiveram que trabalhar mesmo e podem se dar ao luxo de se manterem sem renda complementar. Para nossa cena underground crescer e se tornar mais forte, só com o sistema político e econômico também melhorando, também fornecendo riqueza para a população e conseqüentemente para todas as áreas da cultura, pois ainda estamos na fase de escolher entre comprar um livro ou fraudas comprar um cd ou pagar a conta de luz atrasada.
João Antonio: Com essa bagagem na costa a Oligarquia com certeza passou por muitas historias boas e ruins, quais são as historias que mais marcaram o grupo.
Panda Reis: Depois de tantos anos, várias coisas aconteceram e ainda acontecem e com certeza aconteceram, algumas, em suas grandes maiorias impublicáveis (rs), sempre as mesmas merdas que se fazem quando se bebe demais, se droga demais, nada que um monte de bandas de rock não tenha feito hahahaha!!!! Agora o mais surreal que me lembro foi quando viajávamos de volta pra SP de um show em uma cidade longe pra caralho, quando nos deparamos com um acidente de moto com duas vítimas e lá vai seis ou sete chapados ajudá-los em plena estrada , e o pior que conseguimos!!! Hahaha!!! Ai quando chegou o socorro (resgate, polícia etc...) claro que tratamos de sair fora, até por que ali ninguém estava em condições de explicar nada. Teve casos tensos como quando tivemos que sair escoltados de um show em Curitiba por causa dos Skins e Black NS que queriam minha cabeça (RS), e outros que até hoje tento entender, como em shows que tinha caras vestidos a caráter com espada, coroa e se sentindo na idade média... cada viagem acontece uma merda, já quase fomos presos, mortos... 19 anos de estrada, de underground... já aconteceram coisas pra caralho com a gente nesse underground.
João Antonio: Max Hideo entrou nos vocais há pouco tempo e já encarou a responsabilidade de manter a força da Oligarquia. Como foi feita essa escolha?
Panda Reis: Conheço o Max desde a época que lançamos nossas demos, na época ele morava no Japão e trocávamos correspondência. Os anos passaram, algumas coisas aconteceram tanto pro Max como pra Oligarquia, até que quando o Alex Chiovitti resolveu sair fora, o Max entrou quase que instantaneamente, já conhecia o potencial dele no Conexão Pentagrama e já éramos amigos de longa data, tanto é que logo que ele voltou pro Brasil já fortalecemos a amizade e até cogitamos várias vezes de montarmos uma banda juntos, mas eu nunca tive competência e comprometimento de tocar no Conexão Pentagrama (rs), e os projetos nunca rolaram de verdade, então quando perdemos o vocalista ele já estava praticamente assumindo os vocais e já mudou a cara da banda, ele deu um brilho mais moderno, mas recente pro Oligarquia, pois a voz dele é mais forte, ele segue uma linha mais das bandas de death metal da segunda metade dos anos 90 e isso foi um diferencial, pois a voz do Max Hideo é muito mais potente e tem muito mais recurso, ele nos obriga a prestar mais atenção na linha vocal. Além do que ganhamos um compositor, o Max compõe ótimas linhas de guitarra, ainda não deu pra ele criar nada pra esse disco que ta saindo (Distilling Hatred), mas estou ansioso pra começarmos a compor novamente.
João Antonio: Vocês participaram de diversas coletâneas, com isso vocês acreditam que assim o trabalho pode ser mais bem difundido?
Panda Reis: Eu acredito no underground, acredito no moleque que curte um som e curte ouvir as bandas preferidas dele, quanto mais material tivermos pra divulgar nossa banda entre esses bangers que curte a banda, o som que fazemos sem se ligar em qual gravadora a banda tá agora ou se foi ou não pras gringa, faço musica pras pessoas que pensam, que não apenas escutem... difundir o nosso som é difundir nossas idéias, pois a Oligarquia é 50% letra e 50% musica, nossa meta nunca foi aparecer, ser uma banda influente no cenário, e sim fazer o nosso death metal tradicional e escrever letras e não contos fictícios temos muito pra falar, e acreditamos em ações no mundo que o mude, não somos apenas mais uma banda de headbangers acéfalos que só quer tocar metal e comer bucetas... somos revolucionários que utilizam a música como arma pra difundir nossas idéias. As coletâneas tem um grande poder de alcance pra um público que não nos conhece e que nunca nos ouviria em outra ocasião.
João Antonio: Como é a repercurção do trabalho de vocês fora do país?
Panda Reis: Sempre tivemos nossos materiais distribuídos lá fora e lançamos um split em 2004 na Europa, mas o cenário lá é gigante, tudo acontece ao mesmo tempo, é tudo dinâmico demais, então um cd nosso lá fora por uma gravadora pequeníssima vai passar quase que despercebido... não pra 1000 pessoas que tiveram contato com ele, esses nos escrevem, querem material antigo (ae Mutilation Records e Destroyers Records, coloca os nossos discos antigos em catálogo que tem gente querendo!! hahaha) e acompanham a banda. pra ter mais repercussão você tem que ir até lá, tocar pra eles, participar da cena deles... e sinceramente tenho mais tesão de ir pro Nordeste, pra outros Países da America do Sul, fazem mais sentido pra mim (RS).
João Antonio: Atualmente a Oligarquia tem contrato com a Poluição Sonora Records, porém ja foram lançados pela Mutilation Records empresa de grande nome no cenário nacional. Como foi trabalhar com eles e como está com a atual?
Panda Reis: Não temos mais contrato com a Mutilation Records, nosso contrato foi apenas para o Humanavirus e acabou ali. Hoje estamos contratados pela Poluição Sonora Records. Trabalhar com eles (Mutilation Recs) foi como trabalhar em qualquer empresa privada, você trabalha , faz o trabalho pesado, o grosso, roei o osso e os lucros ficam com os patrões. Gravadoras são todas as mesmas merdas, os mesmos capitalistas do caralho querendo se aproveitar do underground... é isso que sempre me deixou puto com as gravadoras, a maneira empresarial de tratar as bandas, a cena, o underground!!! Ai pessoas me irão dizer que vivemos em um sistema capitalista globalizado e que tudo tende a seguir o mesmo rumo, lógico que em proporções micro, mas é reproduzida no underground. Não vejo as gravadoras de outra maneira que não seja exatamente como você citou “empresa”. Eles lançaram nosso cd, distribuíram da maneira deles e eu tive vários problemas com eles , assim como tive com todas as outras gravadoras que tivemos, é tudo da mesma laia, todos querem mais o benefício próprio que o benéfico conjunto de uma cena, ser gravadora é mais que prensar o seu cd, ficar com praticamente todo o lucro e não fazer mais porra nenhuma. A Mutilation Records é uma grande empresa de grande nome no cenário nacional... que trabalha como todas as demais gravadoras daqui abaixo da linha do Equador, apesar de que depois deles quase assinamos com a Dark New Age Records do glorioso Wallerson, que conseguiu ser mais cuzão, mais pé de breque que todas as outras que tínhamos algum contrato, e com eles consegui brigar e arrumar encrenca antes mesmo de assinar o contrato!!! hahahaha. Vida longa ao underground, as gravadoras estão morrendo e vocês nem imaginam como sonhei e esperei esse dia...
João Antonio: Eu gostaria de agradecer a entrevista e deixo aqui o espaço pra vocês falaram com aqueles que apreciam o trabalho de vocês.
Panda Reis: Que isso parceiro, você não precisa agradecer não, nós que temos que agradecer o espaço dado e queria apenas dizer que as minhas opiniões , minha visão de mundo e a maneira que eu me integro nele ou que o contesto , são de responsabilidade exclusiva minha, e queria deixar claro que apesar de parecer um pouco pessimista, acredito no nosso underground, e sei que é um de todos do mundo que tem melhor qualidade, estou nele á um pouco mais de 25 anos e sempre lutei por ele, o que me enoja é a farsa que existe nele, fingindo que esta tudo belo, tudo certo, enquanto bandas nos fundões das periferias do Nordeste, do Norte, não têm o mesmo espaço... Até as bandas dos ditos centros musicais, se não tiver as “ferramentas” certas não irão aparecer. Minha revolta é por reproduzimos no nosso underground tudo que odeio do mainstreen (mesmo que de maneira minimizada), o dia que o underground agir como tal e não sonhar em ser o que não é começarem entender que, por causa da política internacional e a história geopolítica de exploração que sempre jogou a America do Sul na merda, ainda não somos o que pintamos ser. Por isso que eu digo, faço parte do underground, mas o lado B do underground, aqueles que usam a musica, a arte como ferramenta intelectual pra se pensar. Pena não ter conseguido nesses quase 20 de Oligarquia, atingir um numero significativo de bangers que escutem , leiam e debatam nossas letras, nossa música... Quem sabe mais pra frente, né não!??? (RS) Obrigado.? (RS) Obrigado.
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