

Hangar: Entrevista para o RockBox

Na última quinta-feira, 1º de Abril, a Hangar lançou em Porto Alegre o seu mais novo álbum, Infallible.
Solícitos e atenciosos, os músicos concederam ao RockBox uma entrevista logo após a passagem de som no Revolution Music Pub. Confira!
RockBox – Sobre o álbum novo: Na opinião de vocês, Infallible é muito diferente dos álbuns anteriores? Poderiam traçar um comparativo com o álbum anterior?
Fábio Laguna – O álbum anterior, em relação a esse, foi diferente em todas as etapas. O anterior demoramos 2 anos e meio, 3 anos, pra fazer. Dessa vez levamos 4 meses. Então ele é diferente porque retrata muito mais o que a banda é no momento, o que é agora. É um álbum que a gente ainda está assimilando, pela velocidade que ele foi feito.
A gente fez um álbum como ele deve ser feito mesmo: pré-produção, ensaio, gravação, clipe, orçamento…E a banda inteira junta, em estúdio. O álbum anterior foi mais por etapas porque dependia de agenda de outros projetos de cada membro da banda. Outra diferença é que o The Reason of Your Conviction era um álbum conceitual, tinha um clima mais tenso, as letras eram mais “pesadas”. Nesse álbum novo isso também mudou. A gente colocou nas letras mensagens positivas. Deixamos as nossas influências fluírem, sem se prender em “ah, vamos fazer pesado”, simplesmente deixamos fluir.
RockBox – E esses 4 meses, que parecem pouco tempo, influenciaram positivamente no processo todo, fazendo com que a banda lançasse um material com essa energia atual, da formação nova?
Humberto Sobrinho – Sim, sim. Conforme o Fábio falou, estava todo mundo junto. Isso por si só já dá velocidade a todo o processo. Como antes era cada um em um lugar e cada um dependendo do outro, era mais complicado.
Aquiles Priester – Antes também tinha uma coisa que era engraçada. A gente fazia as coisas por etapas. O Mello e o Matinez faziam as coisas aqui, daí levavam pra São Paulo. Aí eu mexia um pouco. Depois levavam pra Mococa, o Fábio mexia um pouco…Então não tava todo mundo junto pra lapidar aquilo juntos e no final falar: “isso aqui representa o que todo mundo quer”. Então dessa vez foi muito mais objetivo. A gente acabava as músicas e não tinha aquela coisa de “ah, essa parte aqui tá estranha”. Quando gravamos elas era porque já estavam muito definidas. Antes a gente gravava as músicas mas não estava mais ouvindo elas. Depois de gravar todas a gente voltava a mexer na primeira música. Aí a gente tinha uma visão um pouco mais fria.
Fábio – E quatro meses podem parecer pouco. Mas foram quatro meses mesmo, inteiros, seguidos, trabalhando desde a hora que acordava até a hora de dormir, só trabalhando no disco, todo mundo, sem final de semana nem nada. Talvez nos 3 anos do disco anterior tenhamos trabalhado menos do que nesse disco, porque foram quatro meses intensos.
RockBox – O trabalho de vocês com o Angra também influenciava nisso, não? O tempo era dividido entre duas bandas.
Aquiles – Sim. E naquela época também os integrantes não estavam trabalhando somente com bandas…
RockBox – Workshops, aulas?
Aquiles – : Não, outros empregos mesmo!
RockBox – “Jobs”?
Risos
Aquiles – Exatamente! A gente tinha outros trabalhos paralelamente à banda.

RockBox – Ainda sobre o Infallible, alguns fãs comentam que o álbum é muito leve ou que tenha muitas baladas. Como vocês recebem isso?
Humberto – Como você disse: alguns. Acho que a maioria captou o que a gente queria passar. Música honesta, verdadeira. Sem se preocupar com um estilo B ou C, contanto que fosse música boa.
Aquiles – O álbum tem duas baladas. Eu acho que o fã de metal é exigente demais, então ele às vezes, associa a música de uma banda de metal a distorção. Nós temos músicas que chamam de baladas porque não tem guitarra distorcida ou pedal duplo, mas é uma música extremamente progressiva. Mas esse tipo de coisa a gente acha legal, mostra que a banda está tendo algum significado. Ia ser muito ruim se a gente lançasse um disco e ninguém falasse nada dele. A gente prefere que as pessoas falem.
Eduardo Martinez – Eu ouvi isso agora, pela primeira vez. Nós temos um show acústico. Sem distorção em nenhum momento. Essas músicas poderiam facilmente ter esse aspecto musical, com esse processo de rearranjar músicas pesadas e de compor no violão também, e depois agregar distorção e as levadas características. Então as músicas sempre podem ter mais de uma versão. A gente encontrou algumas músicas que nasceram acústicam e ficaram um pouco mais elétricas. Quem tem visto o show acústico tem entendido.
Fábio – E o processo mais rotineiro de se compor é com o violão. Uma música nasce como uma balada, com uma boa melodia e harmonia. Depois que vai se colocar distorção, pedal duplo, milhões de notas e andamentos. A música tem que ser boa na essência. Talvez seja isso que as pessoas que “reclamam” não percebam. Se tirar tudo o que tiver de compressão, distorção e tudo mais, ainda vai ser uma música boa.
Humberto – Ninguém consegue agradar 100%, mas se a maioria gostou, então acho que fizemos a coisa certa. Seria ruim se fosse o inverso. Aí teríamos feito um disco ruim.
Aquiles – Mas vocês vão ver que ao vivo as músicas soam muito pesadas. E uma preocupação grande que a gente tem é com a qualidade da performance ao vivo. A gente não grava nada que não dê pra fazer ao vivo. A gente procura não encher de arranjo, um monte de voz, pra que quando a gente toque a música não soe “pequena”. Nossa ideia é ser uma banda de estúdio que seja boa ao vivo.
RockBox – Isso foi possível notar durante a passagem de som. A banda reproduz exatamente o que está no CD.
Humberto – Sim. A pessoa que compra o disco quer ouvir ao vivo exatamente aquilo que ela ouve no disco. E nós temos muita preocupação com isso.
Martinez – O Humberto é muito responsável por isso, porque ele consegue interpretar esse tipo de música de uma maneira que a gente se sinta bem. Passa bem nos andamentos lentos, tem a voz que a gente queria pra fazer esse tipo de música.
RockBox – O Humberto é natural de Recife e a banda tem membros de vários lugares. Onde é que vocês estão residindo no momento?
Aquiles – Dentro de um ônibius! A nossa casa é um ônibus!
Risos gerais
RockBox – Como foi a entrada do Humberto, a escolha definitiva?
Nando Mello – Foi fácil e foi difícil. Depende do ponto de vista. Difícil porque eu tive que ouvir 147 pessoas que mandaram material pro nosso e-mail e foi complicado. Em compensação, quando o Humberto mandou o material dele, tive certeza quase absoluta de que a única dificuldade que teríamos seria a de conhecê-lo pessoalmente. Um “louco” que morava em Manaus, querendo entrar em uma banda em que dois moram em São Paulo e dois moram no Rio Grande do Sul. Mas ele provou ser esse “louco” e está aí, como a melhor escolha, muito acima dos outros 146 que nos enviaram materiais.
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RockBox – Infallible teve várias participações. O que não era comum nos álbuns anteriores da Hangar. Uma dessas participações é do Roupa Nova, o que era inimaginável até então. Como foi o convite?
Nota: Em Infallible a Hangar gravou “Mais uma vez” de Renato Russo, com participações vocais da banda Roupa Nova.
Aquiles – Quando a gente gravou um show acústico em São Paulo, a gente tinha pensado em chamar o batera deles, o Serginho Herval, pra cantar uma música (essa que eles participaram agora) Devido à agenda não deu certo. Mas a gente começou a tocar aquela música ali ao vivo, em todos os acústicos, porque tinha a ver com o momento da banda. E quando a gente foi escolher um cover pra gravar, pensamos nessa música e foi meio que unânime. É uma música legal porque tem uma mensagem boa.
Tinha a ver com a gente. A gente chegou a um ponto de a banda passar de um projeto de dois integrantes de uma outra banda a uma banda que quando lançou The Reason Of Your Conviction entrou em todas as votações de melhores do ano, melhor banda, melhor disco, melhor show, melhores instrumentistas…A gente viu ali que poderia tentar uma coisa diferente dessa vez. Enquanto a gente estava fazendo aquela música, teve aquele insight e eu entrei em contato com o Serginho e ele falou:
“Olha, nós não costumamos fazer participações individuais. Só a banda inteira. Eu posso levar pros caras ouvirem, se eles acharem que é legal, a gente grava. Se não, desculpem, mas não posso quebrar uma regra da banda”.
Felizmente eles gostaram demais. E essa foi a primeira música que a gente finalizou, pra poder mandar pros caras. Aí eles gravaram as vozes e aí acompanharam um pouco a mixagem, mandava pra eles…Eles opinavam:”pô, quem sabe não faz isso na guitarra, coloca isso na batera”…Então eles tiveram uma participação na mixagem dessa música. A gente fez com que ficasse bem do agrado deles.
RockBox – No site da Hangar aparece um novo selo (Dynamo). A Hangar ainda trabalha com a Spiritual Beast? A Dynamo lança os materiais no Brasil?
Aquiles – Ainda trabalhamos com a Spiritual Beast (Japão). A Dynamo é brasileira. E no dia 30 de abril o álbum sai na Europa pela Mig Music, que é uma subdivisão da SPV Records.
RockBox – Na opinião de vocês a cena metal atual tem evoluído ou decaído? E para a Hangar, como vão as coisas?
Aquiles – Eu acho que as pessoas estão mais seletas, inteligentes. Elas não caem mais naquela velha e boa pegadinha da banda que faz um bom disco, mas que é ruim ao vivo. As pessoas acabam gostando mesmo é de música boa. Como é que você explica num mesmo dia, dois shows de bandas grandes aqui, como Dream Theater e Guns N’ Roses, os dois muito bem de público?
Significa que as pessoas vão onde acham que vale a pena. Então nosso objetivo com esse disco é proporcionar isso…Logicamente tivemos uma quebra de força quando tivemos que mudar de formação antes de fazer esse disco, mas no disco anterior não tínhamos a estrutura pra fazer shows que temos hoje. É uma estrutura inteiramente nossa, a gente não depende de ninguém pra fazer um show hoje. Com certeza essa vai ser a tour que a banda mais vai tocar. A gente vai querer realmente que as pessoas vejam o poder da banda ao vivo, pra expor a banda e pra mostrar bem as músicas do novo disco.
RockBox – Quanto às datas: vocês tocam hoje aqui em Porto Alegre, amanhã em Ijui, e depois disso, há mais datas?
Aquiles – Já tem outras marcadas. Em maio a gente toca na Virada Cultural, junto com o Sepultura.
Fábio – Tem datas em SC também…Criciúma, Brusque…
RockBox – Planos de tour europeia e asiática?
Aquiles – Tudo depende de como vai ser a aceitação do nosso disco por lá. Fica muito mais fácil se você tem agenda na Europa e no Japão. Pra ir só pra um deles, às vezes, não vale à pena, financeiramente falando. Mas o legal é que essa gravadora nova, europeia, está acreditando muito na banda, gostaram muito do disco e estão injetando muita força na Hangar.
RockBox – Que bandas da cena atual vocês gostam?
Martinez – Eu tenho tocado muito Freakeys pra ver se eu lembro das músicas, ultimamente.
Fábio – Eu tenho ouvido Stuck Mojo, Haunted…
Aquiles – Eu ouço muito Porcupine Tree, ultimamente.
Fábio – Fora do metal também gosto de muita coisa. Mars Volta, por exemplo. Perfect Circle, Chroma Key…
Nando – Firewind, gosto bastante.
Aquiles – Tem uma banda nova, de São Paulo, que as pessoas vão ouvir falar muito rápido. O nome é Melhor Não Misturar as Coisas.
Risos gerais por parte de todos
Aquiles – Sério, é uma loucura! Os caras cantam em português, inglês, japonês…E vários estilos…É loucura! Guardem esse nome!

RockBox – E o show dessa noite? Vocês tem percebido alguma movimentação dos fãs de Porto Alegre?
Aquiles – A gente quer ver daqui a pouco!
Risos
Nando – Se tivesse perguntando sobre Recife, Rio de Janeiro, São Paulo, já saberíamos responder, mas aqui na “Pátria Mãe” não sabemos nada ainda.
Aquiles – A gente até resolveu fazer o primeiro show dessa tour nova no lugar onde a gente ficava maior parte do tempo ensaiando. Porque a gente ficava muito tempo só ensaiando aqui em Porto Alegre, sem show. Então é legal começar aqui, com estrutura nova, ônibus novo…Uma forma de nos aproximar um pouco mais dos gaúchos. Porque somos uma banda gaúcha e fazemos sempre questão de falar que somos. A banda começou num quartinho lá no Parque dos Maias. Passamos muitos anos ali. Tudo que acontece hoje, já pensávamos naquela época. Só achávamos que ia ser um pouco mais rápido.
Nando – Tem bandas que tocam só em um local, e já têm seu público, e aí acaba ficando confortável demais, tanto que elas acabam nem saindo daquele lugar. Nós estamos fazendo o caminho inverso: temos tocado bastante fora, sabemos o público que temos fora daqui, e agora vamos testar hoje se esse trabalho está surtindo efeito.
RockBox – Pra encerrar: Humberto, como está sendo pra você a recepção do público e essa experiência de assumir os vocais da Hangar?
Humberto – O Hangar é uma banda de fãs hiper apaixonados. Estou sendo muito bem recebido, tanto por quem já me conhecia de bandas anteriores quanto por quem não me conhecia. Eu estou super feliz com isso. Quando você entra numa banda, você entra pisando em ovos, pela questão do público, que são pessoas exigentes. O público de metal hoje é bem seleto, preocupado com a questão da qualidade. E eu tenho sido muito bem recebido. Fico super feliz, acho que nada melhor do que ver as pessoas apoiando aquilo que você está fazendo. É um sinal de reconhecimento muito grande pra mim.
Por: Murilo Bittencourt
Entrevistas







































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